Coisas que eu estranhei quando cheguei na Alemanha (e algumas que continuo estranhando)

Quinta-feira passada, no dia 3 de Maio, fez um ano que estou na Alemanha. Isso me levou a refletir que, apesar da pesquisa pré-mudança, era minha primeira vez pisando na Europa e, naturalmente, estranhei vários hábitos dos alemães. Então resolvi finalmente utilizar uma listinha onde estava anotando coisas, principalmente hábitos, daqui que eu achava diferentes e contar para vocês, relembrando aquilo que já considerei muito inusitado e hoje não acho mais e, claro, outras coisas que continuo sem me acostumar.

1 – Silêncio

Uma das primeiras impressões de Munique tivemos ainda no aeroporto: o mais silencioso em que já estive até hoje. O metrô também é super silencioso, quando converso com alguém normalmente falo baixo para não ficar com a sensação de que estou gritando.

2 – Pessoas falando sozinhas na rua?

Não é nada demais, mas ainda não me acostumei com o povo falando sozinho com o fone de ouvido pela rua e nos metrôs. “Tá, mas isso também tem no Brasil” vocês pensarão. Mas o que é mais diferente é a frequência com que eles falam no telefone aqui. Penso que no Brasil, devido aos aplicativos como Whatsapp estamos deixando telefonemas meio de lado. Aqui não, sempre tem alguém falando no telefone com o seu fonezinho.

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Aeroporto de Munique.

3 – Leitura de jornal

Que as pessoas leem bastante aqui pela Europa eu já sabia. Inclusive, apesar de aqui em Munique elas lerem muito, não chega nem perto de como é em Paris, por exemplo, como contei aqui nesse post. Mas que ainda se lia tanto jornal em papel quanto se lê, eu não imaginava. É bem comum pessoas lendo jornais no metrô e encontrar jornais à venda nas ruas.

4 – Celulares antigos

Uma coisa comum de se ver aqui são pessoas com celulares mais antigos, que não são smartphones. Também se vê um mercado bem dividido em Apple e Samsung; e a Motorola, forte no Brasil, começou a ser vendida nas lojas aqui em Munique há poucos meses. Eu tenho um Motorola e nunca encontrava nenhum acessório por aqui.

5 – Atravessar a rua somente no sinal verde

É assim mesmo e até, em algumas cidades alemãs, o povo xinga se você atravessar com o sinal de pedestres fechado. Nunca vi isso acontecer aqui em Munique, mas aqui também se respeita bastante os sinais. Esses dias vi um casal atravessar uma rua mais movimentada no centro com o sinal para os carros aberto e fiquei chocada, ou seja, estou alemanizando. Essa questão para eles é bem importante, principalmente quando há crianças por perto, para se dar o exemplo.

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Placa no sinal de pedestres: “Atravesse somente no verde, seja exemplo para as crianças”.

6 – Cachorros quietinhos por todo o canto

Uma das primeiras coisas que também chama a atenção para quem chega aqui são os cachorros, que acompanham os tutores em tudo quanto é lugar: desde festas na rua até em shopping, restaurantes, lojas e até em órgãos públicos. Uma vez eu estava em uma loja de departamentos e tinha um dogue alemão junto com seu tutor olhando as LOUÇAS. Eu morro de medo de quebrar eu mesma alguma coisa nessas seções, imagina com um cachorro grande daquele jeito?!

Os cachorros aqui também precisam ser adestrados, então é muito raro ouvir algum latindo. E justamente por serem adestrados não é legal você sair fazendo carinho neles, às vezes o próprio cachorro estranha, outras o tutor não gosta, então o ideal é sempre perguntar antes.

7 – Sobre acessibilidade e terceira idade

Ser idoso ou deficiente físico no Brasil e aqui na Alemanha é claramente muito diferente. Óbvio que são diversos fatores que afetam essa questão, mas é lindo ver como aqui os velhinhos se divertem. Viajam, passeiam, se reúnem com os amigos para jogar no parque (xadrez, bocha). E o mesmo acontece com os deficientes, que em geral no Brasil necessitam de alguém sempre os auxiliando para andar na rua (ou encontram muitos obstáculos) e aqui têm a possibilidade de fazer tudo sozinhos.

8 – A liberdade das crianças

Nunca tive muito contato com alguém com filhos aqui para conseguir observar bem as diferenças na educação, mas já se vê muita coisa diferente só de olhar os papais e mamães com as crianças pelas ruas. Por exemplo, aqui eles raramente seguram as crianças no colo, é no carrinho ou no chão. Também vejo que é dada uma confiança e liberdade grande para elas, como o fato de crianças muito pequenas andarem de bicicleta em ruas movimentadas ou ficarem correndo pela plataforma nas estações de metrô. Pode ser minha caipirice, mas me dá muita agonia de ver as crianças pequenininhas tão soltas em lugares que me parecem tão perigosos.

9 – Comer em pé

É bem comum aqui em restaurantes de estações de metrô, shopping ou de lanchinhos mais rápidos as mesas serem daquelas mais altas ou balcões e sem banquetas. Eu, como uma pessoa que gosta de comer no seu tempo, sentadinha numa mesa, aproveitando a refeição, estranhei muito como isso é comum aqui.

10 – Envio de cartas

Aqui é praticamente tudo feito por meio de cartas: contratação do serviço de televisão, internet, eletricidade, seguro de saúde, etc. E aí vai um relato: depois de eu ter contratado um desses serviços, tive uma dúvida e resolvi enviar um e-mail, informado em uma das cartas durante o processo de contratação. Estranhei que a resposta não veio logo, já que eles são super rápidos para responder e-mails aqui. Uns dias depois, chegou a resposta do meu e-mail, que era bem simples, em uma carta pelo correio! Estranho, né?

11 – Eficiência dos correios e transportadoras

Seguindo nessa linha, já vou comentar da minha surpresa nas primeiras vezes que fui dar uma olhadinha em sites de compras online e qualquer coisa que eu fosse comprar chegaria em no máximo 3 dias úteis (sendo que a maioria chega no dia seguinte mesmo). Nesse caso, o choque é gigante, porque os Correios no Brasil tem um péssimo serviço e eficiência e aqui na Alemanha são inúmeras empresas de serviços de entrega e transportadoras, inclusive várias das maiores do mundo, como UPS, TNT, FedEx e a própria Deutsche Post.

12 – Cinemas

Eu poderia fazer um post falando só sobre as peculiaridades dos cinemas daqui. São quase 30 cinemas em Munique, sendo a maioria bem antigos, daqueles com salas pequenas e as cadeiras todas no mesmo nível. O comum aqui são os filmes dublados, mas existem alguns cinemas com filmes na versão original sem ou com legenda (em alemão, claro). Outra coisa que acho engraçado é que antes do filme não passam somente trailers, mas também propagandas aleatórias como na televisão e, em alguns cinemas (principalmente nos mais novos), elas chegam a durar mais de meia hora!

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Museum Lichtspiele, o segundo cinema mais antigo de Munique, de 1910.

13 – A limpeza dos banheiros e banheiros mistos

No Brasil é tudo muito dividido, inclusive em festas de rua como o carnaval, os banheiros químicos são divididos em femininos e masculinos. Aqui é bem normal encontrar locais e festas populares, de rua, com banheiros mistos. Mas o que eu mais estranho é entrar em um banheiro feminino e dar de cara com um homem limpando. Às vezes ainda tenho a impressão de ter entrado no banheiro errado, haha.

Aqui também na maioria dos banheiros a pessoa que limpa fica na porta com um pratinho para receber gorjeta, em alguns restaurantes, biergartens e, inclusive, no shopping.

14 – Formatação do shopping

Shopping é shopping né? Mas tem algumas coisas diferentes nos daqui de Munique, como não ter praça de alimentação. Eles têm restaurantes e lanchonetes, alguns oferecem umas mesinhas, mas outros não, então no horário de almoço as pessoas sentam pelos bancos do shopping comendo de qualquer jeito mesmo. E não importa o tamanho do shopping, ele provavelmente terá somente um banheiro.

15 – O horário de funcionamento dos locais

Acostumados com estabelecimentos que funcionam até às 22h, 23h e, aqueles de cidades grandes, com lugares funcionando 24 horas, estranhamos bastante quando nos deparamos com os mercados e lojas fechando no máximo às 20h todos os dias e não abrindo aos domingos e feriados. Mas é tudo uma questão de organização, não demora muito e a gente acostuma.

16 – A popularidade dos apps e sites de namoro

Apesar de eles também existirem no Brasil, aqui eles são ainda mais variados e específicos, como por exemplo para a terceira idade ou para quem gosta de cozinhar. Você vê muitas propagandas deles pelas estações de metrô e nas ruas.

17 – Repetir roupa

No Brasil, ou pelo menos no meu círculo de amizade, era considerado um pouco bizarro e até anti-higiênico a pessoa ir trabalhar com a mesma camiseta dois dias seguidos, por exemplo. Aqui, mesmo no verão, vejo que as pessoas são um pouco relaxadas nesse sentido (não estou entrando no quesito higiene aqui, só na tranquilidade em repetir roupa mesmo). Não sou uma pessoa que liga muito para essas coisas, mas é curioso ver como algumas coisas da nossa cultura a gente absorve de qualquer maneira, a ponto de eu reparar no rapaz de um hotel que fiquei que usou 3 dias seguidos a mesma camiseta ou da minha primeira professora de alemão que usava sempre a mesma calça.

18 – Patinetes

Os patinetes no Brasil tiveram o seu tempo e agora os enxergamos praticamente só como brinquedo de criança. Eu sei que existem campeonatos radicais com eles, mas isso estava bem distante do que eu via no dia-a-dia. Já aqui vejo muitos adultos utilizando como meio de transporte, como um skate, bicicleta.

19 – Fumar

É, de novo. Já falei sobre isso aqui, mas não podia deixar de pontuar como isso é estranho. E como é estranho ver propagandas de cigarros e máquinas de vender cigarro nas ruas.

20 – Assoar o nariz

Um hábito que me acostumei parcialmente, porque concordo que é melhor tirar logo o que tá incomodando do que puxar de volta, haha. Mas o negócio é que não há limites aqui, algumas pessoas assoam o nariz escandalosamente e em qualquer lugar: sala de aula, metrô, trabalho, na mesa no restaurante…

21 – Academias sem instrutores

Nas academias brasileiras há toda uma preocupação com lesões, noção corporal e atenção aos movimentos. Aqui você pode se inscrever com um plano básico em uma academia e nunca ter contato com um profissional de educação física, já que nesse caso é você mesmo monta seu plano de exercícios e faz tudo sozinho. Os instrutores ficam na recepção disponíveis para o caso de você ter alguma dúvida durante o treino.

22 – Rotina de exercícios

Percebo também que os alemães gostam bastante de fazer exercícios ao ar livre. Por esse motivo no verão, ao contrário do Brasil, as academias ficam mais vazias do que no inverno. A corrida de rua é também bem apreciada por eles, que correm, inclusive, no inverno, no vento, na chuva, na neve…

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Todo dia é dia de correr ou andar de bike no parque.

23 – Circos com animais

Logo que cheguei vi algumas placas de circos e alguns conhecidos me indicaram um para ir, bem famoso por aqui. Como nos materiais promocionais sempre tinha desenhos de bichinhos fui dar uma olhada antes de resolver ir e, para minha surpresa, os circos aqui ainda têm animais, sim. Para nós brasileiros (pelo menos na minha região), isso já é proibido e feio faz algum tempo.

24 – Fazer reserva nos restaurantes

Uma coisa que ainda preciso me acostumar é com a organização dos alemães para “sair para comer”. Apesar da quantidade enorme de restaurantes eles sempre reservam mesa. Eles saem muito para comer fora, principalmente no final de semana, o que faz com que vários restaurantes realmente lotem. Mas às vezes o restaurante é bem grande ou é uma segunda ou terça-feira e não seria necessário, mas eles reservam mesmo assim para garantir (e porque com eles não funciona isso de sair espontaneamente). Eu, como boa brasileira que sou, sempre esqueço de fazer a reserva 🙂

25 – Vidro em festas

Por questões de segurança, em muitos lugares no Brasil, é proibido o uso de garrafas de vidro, além de que evitamos carregar copos de vidro com a gente para fora de casa. Aqui eu vejo frequentemente pessoas fazendo piquenique nos parques com taças de vidro para tomar vinho ou champagne, por exemplo. Nas festas também é normal garrafas de vidro e os clássicos canecões de vidro.

26 – Nudismo

A nudez aqui é tratada de forma muito natural (até porque é natural mesmo). No Brasil vemos tudo de modo muito sexualizado, o que me fez estranhar, por exemplo, como os vestidos e shorts são ainda mais curtos aqui do que lá, apesar de lá fazer mais calor. Pela cidade de Munique existem vários lugares para a prática de nudismo, em parques e às margens do rio, mas também é comum ver pessoas em outros lugares fazendo topless, por exemplo. E há ainda as saunas, localizadas geralmente dentro de algum complexo de piscinas, nas quais várias é para se entrar pelado.

 

São tantas coisinhas que a gente faz de um jeito no Brasil, fez assim a vida toda, e quando chega em outro lugar, vê sendo feitas de outra maneira e fica surpreso, às vezes assustado. Para mim essa é a maior graça de viajar e morar em outro lugar, ver esses diversos pontos de vista, ver como nós somos todos parecidos, temos as mesmas necessidades, mas como nós também podemos fazer as coisas de uma maneira diferente.

Comecei a anotar esses tópicos há pouco tempo, por isso tenho certeza que falta um monte de coisas. Quem mora aqui também, me ajudem dizendo o que vocês também acham estranho! E quem não mora, qual foi o tópico que você mais achou bizarro?

2 Replies to “Coisas que eu estranhei quando cheguei na Alemanha (e algumas que continuo estranhando)”

  1. Realmente achei coisas muito diferentes mesmo, mas o número 20 – assoar o nariz – é extremamente escandaloso. Adorei seu post, uma delícia de ler.

    1. Obrigada ❤️ Me acostumei um pouco já, mas quando é muito escandaloso acho que não há brasileiro que não estranhe 😂

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