Meus 2 anos de Alemanha e as dificuldades de morar fora

Em 3 de maio de 2017, há dois anos, desembarcamos no nosso novo lar, a Alemanha. Parece que faz muito mais tempo. Dizem que é essa a impressão quando se vive muita coisa em pouco tempo.

É por isso que hoje eu vou dividir um pouco das minhas experiências desse segundo ano na Alemanha, um resumo de tudo que aconteceu de 2018 para cá. (Para saber sobre o ano da nossa chegada e como viemos parar aqui, leia esse post.)

Pelo fato de eu amar conhecer lugares novos e viver experiências inserida em uma nova cultura, o primeiro ano morando em um país diferente eu tirei de letra. Morar em um outro país, aprender um idioma, conhecer várias pessoas de vários lugares do mundo, ouvir a história de cada um, aprender a me relacionar com essas pessoas; tudo um sonho para mim.

A partir do segundo ano, a vida foi entrando na rotina e surgiram novos desafios.

Curtindo o carnaval de Munique com o marido e os amigos Cláudia e Victor.

Amizades

Eu imaginava que seria difícil de fazer amigos morando em outro país, até porque não é de um dia para o outro que se constrói uma amizade. Mas eu não esperava ter dificuldade em encontrar pessoas para sair, passear, comer fora, tomar uma cerveja no parque.

Apesar de ter me mudado com o meu marido, desde os primeiros meses sentimos falta de outras companhias. Nossa rotina de final de semana no Brasil era bem agitada: almoços, cafés e jantares nas casas de parentes e saídas com os amigos. A mudança foi drástica, já que aqui no início os finais de semana eram normalmente só de nós dois.

Eu conhecia muita gente legal o tempo todo, mas os convites para sair normalmente eram negados ou precisavam de alguma insistência para virarem uma saída.

Acontece que cada um tem seu jeito de se adaptar. Alguns preferiam ficar em casa, outros já tinham amigos aqui, isso sem contar que ainda tem quem sente tanta dificuldade na adaptação no começo que acaba se isolando.

Mas esse um ano e meio de tentativa de amizades me ensinou algumas coisas, como por exemplo a não forçar uma amizade. Se você não se sente confortável, simplesmente não é o momento. Conheci algumas pessoas nos primeiros meses que não tinham nada a ver comigo e pensei que a relação nunca evoluiria para uma amizade. Mas agora, dois anos depois, estamos mais próximos e eu já acho que podemos virar bons amigos.

O negócio é ter consciência de que uma amizade não surge do dia para a noite e de que as pessoas são diferentes. É ter paciência, se mostrar disponível e respeitar o tempo de cada um e o seu próprio.

Nos últimos meses, tenho sentido muita melhora nesse quesito. Já me sinto mais à vontade e tenho alguns grupos de amigos diferentes com os quais faço programas diversos.

Um dos pontos altos de 2018: a visita da minha irmã em Novembro. Na foto, nós em Innsbruck, na Áustria.

Família e amigos no Brasil

Mesmo com a tecnologia, é muito difícil não haver um pouco de distanciamento, é natural. Devido ao fuso horário na maior parte do ano, de 5 horas (enquanto no verão brasileiro e inverno europeu é de 3 horas), falamos com a família uma vez por semana por vídeo e mantemos contato com eles e com amigos pelo WhatsApp durante a semana.

Como morávamos em Joinville, pertinho de várias praias, o verão brasileiro é quando mais dói o coração. Família e amigos na praia, fazendo mil programas e nós longe no longo, escuro e cinza inverno europeu.

Comparado a outros vários destinos, ir para o Brasil a partir da Alemanha é caro, o que torna a frequência de viagens para o Brasil mais baixa. O que me deixa extremamente feliz é que , nesses primeiros dois anos de Alemanha, muitos amigos e familiares já vieram nos visitar. Me realiza poder nos aproximar dessa maneira, recebê-los e mostrar um pouco da nossa vida alemã e dos lugares incríveis que conhecemos aqui ou, até mesmo, conhecer novos com eles.

Casamento dos amigos amados Thaís e Roberto, no Brasil. Foto: Gi Cerutti.

Primeira viagem de visita ao Brasil

Em Agosto de 2018 fizemos nossa primeira viagem ao Brasil, depois da mudança para a Alemanha. Eu estava ansiosa sobre como seria e foi uma loucura! Para irmos em dois casamentos de dois casais super amigos, ficamos no Brasil durante um mês inteirinho, que foi ocupado por compromissos com a família e os amigos todos os dias.

Rever os amigos foi como se nunca tivéssemos mudado, parecia que estávamos de férias e algum lugar e tínhamos voltado. Isso provou para mim o quanto amo as pessoas que moram lá e o quanto o sentimento é recíproco.

Meu primeiro trabalho na Alemanha: o restaurante mexicano COMETA.

Trabalho

As minhas metas para 2018 eram continuar meu aprendizado do alemão e conseguir um emprego, meta essa rapidamente alcançada já no primeiro mês do ano, quando fui empregada em um restaurante mexicano.

Pouco meses depois, no início de abril, caiu no meu colo uma vaga de assistente administrativo, em tempo integral, que achei que era demais para o meu conhecimento do idioma – eu teria que trabalhar em alemão depois de menos de um ano de Alemanha!

Sentimentos diversos, eu sabia que aquilo poderia me ajudar muito a evoluir no idioma, a me desenvolver como profissional. Resolvi me candidatar para a vaga e consegui o emprego!

Não vou me estender muito sobre esse tópico, porque já falei detalhadamente sobre minhas experiências de trabalho na Alemanha aqui.

Cenas como essa foram mais raras em 2018.

Aprendizado de alemão

Enquanto no meu primeiro ano aqui eu passei por 7 níveis do alemão, no meu segundo ano eu cursei somente um nível. Acontece que logo fui percebendo que não adiantava mais eu fazer aulas intensivas de alemão, porque a partir do nível intermediário ficou impossível absorver no meu vocabulário tudo que eu aprendia diariamente nas aulas. Eu precisava praticar mais, conversar mais. Eu tinha a impressão que não estava no nível certo no curso, porque, apesar de entender tudo, eu não conseguia mais evoluir tão rápido na minha conversação.

Com o trabalho meu alemão melhorou muito, eu ainda falo de uma maneira muito simples e crua, mas me viro para me explicar.

Esse último ano eu fiquei em uma relação de amor e ódio com o idioma, porque me vi em situações no trabalho que me deixavam muito vulnerável. A situação de eu trabalhar em alemão faz com que eu mesma coloque uma pressão em mim, de que o meu alemão precisa melhorar o mais rápido possível, deixando de lado um pouco do prazer que eu tinha antes ao estudar o idioma. Pensando na minha personalidade, acredito que esse ainda seja o melhor caminho para eu alcançar meu objetivo de ser fluente no idioma em alguns anos.

Depois de muitos meses desmotivada com o aprendizado do idioma, estou tentando redescobrir o prazer em estudar alemão em atividades do meu dia a dia, como ouvir música, ver programas de televisão e ler notícias no idioma.

Eu e Diego no Japão em Abril de 2019, finalizando nosso segundo ano como moradores da Alemanha.

Lazer

Depois de todo o investimento do primeiro ano, com a própria mudança, apartamento, móveis e curso de alemão, conseguimos curtir o segundo ano um pouco mais. A localização privilegiada da Europa nos permite comprar passagens mais baratas do que se estivéssemos no Brasil. Os destinos que escolhemos também são, obviamente, muito influenciados pelo nosso aeroporto de origem, o que tem feito com que conhecêssemos lugares que não imaginaríamos conhecer tão logo, como Islândia e Japão.

E a própria cidade de Munique é incrível, com uma oferta de lazer enorme! Procuramos experimentar novos lugares, restaurantes de culinária diferenciada, museus, festas e shows, já que a cidade oferece muita coisa.

Além disso, o poder de compra aqui é muito maior do que no Brasil, então conseguimos fazer muito mais com o dinheiro que sobra no mês, o que é maravilhoso e até hoje comentamos sobre a diferença que sentimos com relação a isso, poder nos permitir mais lazer e até comprar produtos que melhorem nosso dia a dia e nosso tempo de lazer.

Como a situação do Brasil nos últimos tempos não está lá muito fácil, escuto muitos comentários como se emigrar fosse a opção mais óbvia, sã e inteligente e talvez a única opção para garantir um bom futuro. Mas a verdade é que emigrar é muito difícil, porque cedo ou tarde os problemas que você tinha no seu país te alcançam ou você se depara com novos e você precisa lidar com eles dessa vez em um lugar diferente e, muitas vezes, ainda sem amizades sólidas e sem família por perto. Por isso, para algumas pessoas, estar próximo de família e amigos pesa mais na balança do que mudar para um país com maior segurança, por exemplo. É tudo muito relativo e nenhuma das duas situações é perfeita, é preciso analisar com cuidado e carinho qual o contexto que mais agrada e as desvantagens que menos incomodam.

Apesar de ter sido um ano de muitos desafios, eu também acho que essas experiências me fortaleceram muito e vão me ajudar a superar algumas questões que eu trazia comigo a algum tempo. Também me ajudou a fortalecer minha decisão de morar aqui, de esperar pacientemente pela minha evolução no idioma e pela evolução das minhas relações aqui.

Ainda não sabemos se vamos ficar aqui definitivamente ou experimentar morar em outros lugares, mas eu me identifiquei com a Alemanha logo que cheguei aqui em Maio de 2017 e cada vez me sinto mais em casa.

2 Replies to “Meus 2 anos de Alemanha e as dificuldades de morar fora”

  1. Parabéns, Carol… Sou Mário Barbosa, o Pai de Luana. Acompanho sempre os seus textos. São maravilhosos!!!
    Auf Wiedersehen.

    1. Oi, Mário! Fico muito feliz que você acompanha e que gosta. Até a próxima! Tschüss 🙂

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