Por que o Japão é considerado o país mais educado do mundo?

Além dos milhares de luminosos, dos prédios modernos e altíssimos e dos templos milenares, existe algo a mais no Japão que vale a pena ser experienciado: o povo japonês, o mais educado do mundo.

Os princípios do “omotenashi”, palavra que significa hospitalidade japonesa, está se tornando inclusive um dos maiores atrativos do país. O termo significa mais do que simpatia e educação, mas também anteceder as necessidades dos outros e exceder expectativas. Isso faz com que o serviço no Japão seja excelente e a educação do povo seja uma das características mais marcantes e impressionantes em uma visita ao país.

Na minha visita ao país, vivenciei algumas situações que me fizeram acreditar que o Japão é realmente o país mais educado do mundo, como o fato de as palavras que você mais escuta são “arigatou gozaimasu” (muito obrigado em japonês). Nas vezes que peguei ônibus dentro das cidades, especialmente em Quioto, percebi que o motorista agradece cada passageiro quando eles saem do ônibus, um por um. Nas vezes em que estava olhando artigos dentro de qualquer loja, os comerciantes passavam por mim e pelos outros consumidores falando coisas como “sejam bem-vindos” e “muito obrigada”. E sempre quando esperei em uma fila, grande ou pequena, ou até mesmo quando fiz uma pergunta ao atendente e ele precisou verificar algo rapidamente no computador, ele fala “muito obrigado por esperar”.

As situações nas quais a educação impressiona são inúmeras e, em muitas delas, nós ocidentais nem imaginaríamos que aquele nível de gentileza seria sequer alcançável.

Tudo isso me surpreendeu, mas também me despertou uma curiosidade sobre as origens dos princípios do omotenashi e sobre o que os japoneses fazem de diferente do resto do mundo para se mostrarem tão prestativos, organizados e disciplinados.

Japonesas vestidas tradicionalmente com kimono em Kiyomizu-dera, templo budista em Quioto.

Religião, rituais formais de chá e artes marciais

Não se sabe bem ao certo a origem desses hábitos, mas muitos deles existem desde os tempos dos samurais. Eles seguiam orientações de um livro chamado Bushido, em português “O Caminho do Guerreiro”, desenvolvido entre os séculos IX e XII. Tratava-se de um código de conduta para o estilo de vida samurai com base em 7 virtudes, sendo uma delas o REI, que significa polidez, cortesia e amabilidade.

Outra cultura antiga japonesa que já trabalhava a questão da hospitalidade eram as cerimônias de chá, trazidas da China ao Japão entre o século XII e XIV, no período Kamakura.

Essas cerimônias possuem toda uma etiqueta, tanto para o anfitrião durante a preparação e ao servir o chá, quanto para o convidado. Para entender um pouco mais sobre a complexidade de uma cerimônia de chá, sugiro o filme japonês Nichinichi Kore Koujitsu (Every Day a Good Day, em inglês). A partir dele é possível observar alguns dos principais fatores da cerimônia, como apresentar a melhor escolha de louças, que mostrem a harmonia dos convidados com os utensílios; o respeito mútuo entre o anfitrião e os convidados, além de ambos com os utensílios; a prática de lavar as mãos e as bocas para que estejam limpos para a cerimônia; e a tranquilidade, que nasce da prática e longo uso dos utensílios da cerimônia*.

Tudo isso tem a base nos princípios religiosos xintoístas e budistas, as principais religiões no Japão até os dias de hoje. Inclusive, muitos japoneses participam dos rituais das duas religiões, o que resulta em estatísticas de que quase 80% dos japoneses são xintoístas e quase 70% budistas*.

Apesar de os japoneses praticarem os princípios religiosos no dia a dia, até porque estão bem enraizados em sua cultura, eles vão de fato aos templos somente em ocasiões especiais, como rituais de casamento ou funerais.

Alunos de escola em excursão em Quioto.

Educação em casa e na escola

Mas ainda hoje, esses valores são ensinados às crianças japonesas, seja em casa ou na escola. Em casa, a família ensina sobre hierarquia, respeito e coletividade, com o respeito aos mais velhos e à unidade familiar. Além disso, é costume os pais passarem muito tempo com os filhos em atividades diversas. Os ensinamentos somados à conexão que os japoneses buscam ter com os seus filhos, incitam nas crianças um desejo muito grande de agradá-los e deixá-los orgulhosos.

Na escola, esses valores são reforçados com hábitos como a relação com os professores. Os alunos devem tratá-los com o máximo respeito, cumprimentando-os de pé ao entrarem na sala de aula e fazendo reverências, além de sempre dirigirem-se a eles de modo formal. Os jovens também aprendem sobre disciplina e humildade, já que são eles mesmos os responsáveis pela limpeza da escola após as aulas e por servirem seus colegas na cantina na hora das refeições, por exemplo.

Restaurante em Osaka.

Etiqueta e boas maneiras

Convivendo nesses ambientes e em uma sociedade que preza pela boa educação, os japoneses aprendem desde cedo inúmeras normas de etiquetas, muito mais do que poderíamos imaginar que existissem. As regras de boas maneiras no Japão vão além de como comportar-se em um restaurante ou em uma reunião de negócios, existe um jeito certo de se portar dentro do transporte público e até dentro do elevador.

Um exemplo é o hábito de se comer enquanto caminha, que não incomoda a maioria dos ocidentais, mas que é uma gafe gravíssima no Japão. O problema na cultura deles é tão grande, que o próprio governo começou a se preocupar em como conscientizar os turistas que visitam o país a não ofenderem a população local com esse hábito desrespeitoso. É necessário parar e, de preferência, sentar para apreciar a comida. Outra preocupação é com a sujeira, já que com a quantidade de gente, a probabilidade de sujar o coleguinha ao lado é alta!

Por ser um país relativamente pequeno e isolado, que sofreu pouquíssima influência externa, essas normas de etiqueta se espalharam pelo país e se estabeleceram mais facilmente.

Status individuais

Mesmo fora do ambiente familiar ou de trabalho, no Japão existe uma maneira correta de tratar cada pessoa. O tratamento correto pode variar de acordo com diversos fatores, como se você conhece ou não a pessoa, idade, formação escolar, cargo profissional ou posição dentro de um grupo.

Os status indicam a posição de um indivíduo dentro do grupo, ou seja, também sugere comportamentos, já que os de status maior querem portar-se melhor para serem exemplos aos de status menor e esses, por outro lado, mostram todo o seu respeito pela sabedoria dos de maior status.

O famoso cruzamento de Shibuya, em Tóquio: com maior movimentação de pedestres do mundo.

Pouco espaço e senso de comunidade

Talvez o tópico mais previsível pelo conceito que temos do Japão e dos japoneses: a influência do espaço limitado. Com seus 9 milhões de habitantes (quase 14 milhões se considerarmos a área metropolitana), Tóquio tem uma densidade populacional de 6.354 pessoas por km². Por isso, outro motivo pelo qual os japoneses são conhecidos por serem respeitosos é porque eles precisam saber conviver em harmonia, apesar do aperto.

O conceito de não incomodar o próximo no convívio diário é muito forte, por isso suas ações são tão bem calculadas e por isso existe etiqueta e jeito certo de fazer praticamente tudo. O senso de comunidade, a ideia de que o grupo é mais importante que o indivíduo, faz com que as ações sejam pensadas e executadas a partir do que é melhor para todos e não apenas para benefício próprio, já que o grupo é mais importante do que o indivíduo. Essa característica, inclusive, eu percebo também em outros países que funcionam muito bem em questões de organização, limpeza e educação do povo.

Honne e Tatemae

Além do omotenashi, existem outros dois conceitos relacionados à educação e cortesia do povo japonês: honne e tatemae. O primeiro significa “som verdadeiro” e refere-se ao que a pessoa realmente pensa e o segundo pode ser traduzido como “fachada” e refere-se ao que a pessoa de fato diz, como ela se mostra.

A questão é que para os japoneses, a cultura de agradar ao próximo é tão forte, que é normal e natural utilizar o tatemae para se portar em devidas situações, como em ambiente de trabalho. Muitos também afirmam que usa-se o tatemae para construir uma relação e depois, com mais intimidade, finalmente começam a sentir-se à vontade para dizer o que pensam de maneira mais sincera e direta, ou seja, honne.

Antes de julgar os japoneses como falsos ou reprimidos, devemos pensar o quanto essa cultura faz bem para eles próprios, afinal o país funciona excepcionalmente bem, e refletir sobre algumas ações da nossa própria cultura.

Os hábitos entre um e outro são tão diferentes que é quase impossível de serem comparados, mas nós também temos nosso tatemae de alguma forma. Os brasileiros tendem a enrolar ao falar algo que talvez machuque o próximo, tentando suavizar ao máximo o impacto das palavras. Muitas vezes, omite ou mente para evitar que o outro saia ofendido.

Por essa nossa cultura de querermos ser sempre agradáveis, o brasileiro se mostra mais alegre, sorridente, tem mais facilidade de demonstrar suas emoções e falar sobre seus sentimentos. Por outro lado, os valores japoneses fazem do Japão um país reconhecido mundialmente por ser moderno, organizado e tradicional.

O negócio é tirar proveito do que vemos de melhor nos outros e melhorarmos a nós mesmos, não é mesmo?

Durante as minhas pesquisas para escrever esse post, me deparei com um artigo bem legal escrito por um japonês explicando a cortesia típica do seu país. O artigo é inglês, mas, além de ter muita informação interessante, é legal ler o que um japonês pensa e como ele se sente sobre isso. Leia o texto aqui.

Deixe uma resposta