Todo mundo nu na Alemanha!

Se você mora na Alemanha, cedo ou tarde vai se deparar com algum corpo nu em algum lugar público. E mesmo se você veio de visita só por alguns dias, principalmente no verão, as chances são grandes de ver alguém pelado.

Talvez um dos maiores choques culturais entre a cultura brasileira e a alemã seja o trato dos alemães com a nudez. A cultura brasileira sexualiza bastante o corpo nu, por isso ficamos surpresos, algumas vezes até assustados, constrangidos e quase sempre curiosos com a naturalidade dos alemães em se despir na frente dos outros.

Mas de onde vem essa cultura?

A questão é que tomar banho pelado sempre foi o normal, pelo menos até o século 15, quando a Igreja foi ganhando mais força e os mais ricos começaram a cobrir-se por pudor. Em torno de 1800, exibir-se despido era tão ofensivo que, além de usarem roupas que cobriam o corpo inteiro, as pessoas utilizavam cabines com rodas para seus banhos em rios, lagos e mares. O banhista entrava ainda de roupa dentro da cabine, que era levada até dentro da água, onde ele podia tomar seu banho longe de olhares alheios.

Sem condições para comprar roupas ou cabines de banho, o costume de banhar-se pelado continuou entre os mais pobres até o século 19.

Paralelo a isso, a sociedade europeia sofria com as consequência da Revolução Industrial, que marcou o século 18 aqui na Europa. Inúmeras pessoas haviam migrado do campo para a cidade e lidavam com péssimas condições de vida e de trabalho.

A região mais atingida pela Revolução Industrial na Alemanha foi o Vale do Ruhr, onde ficam as cidades de Dortmund, Duisburg e Essen. Até hoje essa é a maior área metropolitana da Alemanha, com aproximadamente 5,1 milhões de habitantes.

E foi justamente em Essen onde foi criado o primeiro clube de naturismo da Alemanha, em 1898, com o propósito de uma vida melhor, diminuindo o impacto do êxodo rural e da industrialização e oferecendo uma reaproximação da natureza.

Fonte: Reiseschein.

O significado do Naturismo e o FKK (Freikörperkultur)

Como a motivação era oferecer uma maneira de viver de maneira mais saudável e mais próxima à natureza, o movimento naturista muitas vezes se combinava com outros, como o vegetarianismo e abstinência de álcool e tabaco.

A prática ficou cada vez mais conhecida pelo seu intuito de vida mais saudável, inclusive médicos frequentemente receitavam banhos de sol de corpo nu.

Além disso, o Naturismo significava liberação de diferenças sociais que poderiam ser distinguidas através de roupas. Como falei, a época era de muito pudor, o que fazia com que os homens andassem de ternos e as mulheres de vestidos longos e luvas, independente do clima, escondendo-se o máximo possível. E na maioria dos casos, isso só era possível para os mais abastados.

É daí que surge o conceito do Freikörperkultur, mais conhecido pela abreviação FKK. O termo é muito usado para referir-se ao naturismo e a tradução literal é “cultura do corpo livre”.

O movimento não passou ileso pelo regime nazista, tendo sua prática pública proibida em 1942. Nos anos seguintes a nudez somente era permitida dentro do território dos clubes de FKK. Além disso, e apesar da controvérsia, alguns adeptos relacionavam o movimento com o ideal social-nacionalista de “raça-pura”, tinham orgulho de se mostrar “alemães puros”,  era algo como “somos alemães e o que é perfeito é para ser mostrado”.

Clubes e grupos de FKK

Mesmo com toda turbulência dos anos de regime nazista, o clubes de FKK continuaram ganhando adeptos, principalmente nos anos 70, lado a lado com o movimento hippie. 

Hoje a Deutscher Verband für Freikörperkultur, a DFK tem cerca de 40 mil membros.

As atividades do grupo, chamadas de Nacktivitäten (atividades nudistas), geralmente são a prática de esportes, como caminhadas, cavalgadas, ioga ou até outras atividades como desenhos e cozinhar.

Agora imagina poder viajar com todos os amigos naturistas, ficar em um hotel com vários adeptos do movimentos, participando de várias atividades e festas? Apesar de ser uma prática para o mais festeiros, existem também as FKK-Urlaubs, que são férias promovidas para os naturistas.

A naturalidade com a nudez

É verdade que a maioria dos membros dos clubes e até os praticantes de nudismo que podem ser facilmente encontrados nos parques são, em sua maioria, mais velhos. Mas de qualquer forma, todo o histórico do FKK e a força do movimento na Alemanha impacta a forma de viver em sociedade, mesmo entre os não praticantes.

Você encontra pessoas de todos os tipos e todas as idades em situações que, no Brasil, não aconteceriam e, por isso, podem assustar e constranger qualquer brasileiro em um primeiro momento.

É muito comum, por exemplo, as academias oferecerem sauna, e como os alemães amam, eles normalmente ficam uns minutinhos após o treino. Essas saunas são na sua maioria mistas e só é permitido entrar nu, no máximo com a toalhinha para sentar em cima e para os mais envergonhados cobrirem as partes. Os próprios chuveiros nos vestiários femininos e masculinos não tem cabines. É uma ducha ao lado da outra em um mesmo cômodo.

Quando você vai tomar banho nos parques, rios ou nas piscinas, é comum as pessoas se trocarem ali mesmo na frente de todo mundo antes de irem para casa. Além disso, é normal ver pessoas se banhando de cueca ou calcinha e sutiã.

De uma forma ou de outra, acredito que essa cultura acaba mostrando que todo corpo é um corpo, que nenhum é perfeito, e acabamos aceitando nossos próprios defeitos e nossas qualidades e nos amando mais.

Apesar da naturalidade, não é normal passeios a saunas ou áreas de FKK com a família do(a) namorado(a) ou com os colegas de trabalho, tá? Tudo tem seus limites…

Como reagir e se comportar

Antes de tudo, é importante saber que os alemães se preocupam muito com questões de privacidade na internet, por isso tirar foto de alguém nessa situação é extremamente desrespeitoso.

Seja discreto, afinal de contas, esse hábito é comum entre eles.

As primeiras vezes que você for se despir em algum desses casos, você com certeza vai ficar constrangido. Mas só até perceber que ninguém está nem aí para o seu corpinho nu exibido na sauna, pegando sol discretamente à beira do lago ou na ducha da academia.

Eu achei um texto muito completo com dicas ótimas de como se comportar em uma sauna na Alemanha, veja aqui ó.

Peladões no Englischer Garten, no centro de Munique. Fonte: Stern.de.

Lugares onde você pode ficar nu em Munique

A primeira praia de naturismo na Alemanha foi aberta na Alemanha em 1920 na ilha de Sylt, no norte do país. Mas além dessa praia e, de dentro da sua própria casa, onde mais você pode tentar aderir ao movimento?

Existem lugares específicos e regulados por lei para a prática de topless ou nudismo em Munique.

Rio Isar

Há cerca de um mês, no final de junho, a cidade de Munique decidiu que em toda a margem do Rio Isar o topless é permitido.

Mas existem também áreas específicas à beira do rio, onde a prática do FKK é permitida, como na ilha sob a ponte Herzog-Heinrich-Brücke (leste do norte do Englischer Garten), ao sul em Flaucher próximo ao Zoológico Hellabrunn, na margem leste ao norte da ponte Brudermühlbrücke e na margem oeste bem ao sul de Munique.

Englischer Garten

O maior e mais famoso parque de Munique também tem duas áreas onde é permitido tirar a roupa! No Schönfeldwiese, bem ao lado da muvuca de turistas e moradores que curtem o sol no parque, os praticantes de FKK ficam nus sem vergonha nenhuma. Há inclusive uma figura ilustre, conhecida em Munique, que tem uma espécie de piercing no seu piupiu que gosta pegar sol andando e fazendo seu piercing refletir nos olhos até dos mais desavisados.

A outra área, mais ao norte do parque, na altura da estação de Studentenstadt, já fica um pouco mais afastada dos olhares curiosos dos turistas, já que essa parte norte do parque raramente é frequentada por eles.

Lago Feldmochinger See

O lago ao norte de Munique também tem uma área permitida para FKK. Uma região já nos limites da cidade, mais frequentada pelos moradores da região.

Piscinas públicas

Várias da piscinas públicas daqui de Munique (já escrevi sobre elas aqui) oferecem uma área para FKK, como a Bad Forstenrieder Park, Cosimabad, Westbad, Michaelibad e a Dantebad. Destaques são a Ungererbad que oferece uma área de nudismo somente para mulheres e outra para famílias, e a Naturbad Maria Einsiedel, uma das mais antigas.

Para ver os mapas de todas as áreas de FKK em Munique, clique aqui.

A questão é que por ser um hábito comum aqui na Europa, é normal você encontrar pessoas peladas em outras áreas, além das permitidas. Teoricamente, se alguém avisar a polícia a pessoa é advertida (dificilmente será detida por isso), mas na prática, ninguém se incomoda, ninguém fala nada e ninguém denuncia.

O que vocês acham disso? Deu vontade de provar? O verão ainda está aí, será que dá tempo de adquirir esse hábito?

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