Doutorado na Alemanha – a experiência da Luiza

Hoje eu estou aqui para contar uma outra história de Alemanha, que não a minha. Há aproximadamente um mês uma seguidora entrou em contato para partilhar comigo o seu passo a passo mudando para Munique como doutoranda. Excelente! Como vocês sabem, eu me mudei para cá por outros motivos e logo entrei no mercado de trabalho, além de não ter nenhuma pretensão de seguir a área acadêmica.

A disponibilidade dela em dividir a própria história e meios para chegar na Alemanha me permitiram oferecer essas informações aqui no blog, que por minha experiência eu jamais obteria para compartilhar.

As dicas aqui são relacionadas à experiência dela, mas não quer dizer que você não vá conseguir uma vaga para trabalhar na área acadêmica aqui de outra forma. Mesmo assim, os conselhos da Luiza são valiosos! Espero que o texto e as informações sejam úteis para você, que também pensa em dar continuidade na sua carreira como pesquisador aqui na Europa. 

Foto: Oleg Magni.

Por que fazer um doutorado na Alemanha?

Na Alemanha, um doutorando é considerado como um funcionário, no sentido de que você tem os mesmos deveres e direitos trabalhistas que alguém que trabalha em uma empresa: declarar imposto de renda, direito a férias pagas, precisa apresentar atestado médico somente a partir do terceiro dia de ausência no trabalho, auxílios do governo como Kindergeld, Elterngeld, etc., além de outros auxílios se você é mãe/pai solo, por exemplo, que é o caso dela.

Ao passo de que, no Brasil, esse trabalho é uma bolsa e a pessoa que o exerce é tido como bolsista, não podendo desfrutar dos mesmos direitos de quem tem a carteira de trabalho assinada. É por essa diferença que vou tratar, durante todo o meu texto, o doutorando como um pesquisador/cientista, e não como bolsista.

Outra grande vantagem em ser um cientista na Alemanha é que os projetos e universidades recebem muito mais verba para comparecerem e participarem de eventos, como workshops, congressos e conferências, inclusive em outros países. Por isso e por outros motivos, é mais frequente o contato com outros pesquisadores, outros laboratórios, outras universidades. 

Existem também, é claro, algumas diferenças entre fazer um doutorado no Brasil e na Alemanha, que não necessariamente são vantagens ou desvantagens: como o tempo de duração e a questão de participação em aulas.

Acredita-se que, por ser um país com uma população que adora estudar e reluta para sair da universidade e entrar no mercado de trabalho, o tempo de um doutorado na Alemanha foi encurtado para 3 anos.

Além disso, não há obrigação de atender a aulas, nem como professor nem como aluno. Basta você trabalhar no desenvolvimento do projeto pelo qual foi contratado.

Porém, assim como no Brasil, o futuro para os pesquisadores é um tanto quanto incerto. Aqui na Alemanha, é ainda mais difícil de o profissional ser contratado por uma instituição ou universidade como professor. A relação é, na maioria das vezes, temporária e associada a um determinado projeto.

Foto: mentatdgt.

Como fazer um doutorado na Alemanha?

Agora que os prós, contras e diferenças ficaram claros, vem a resposta para a pergunta: como ir para a Alemanha fazer um doutorado?

Para respondê-la, vou contar um pouco sobre a trajetória da Luiza e deixar para vocês as dicas dela.

A Luiza é graduada em Informática na área da saúde pela Unifesp, um curso de 3 anos (quando ela cursou eram 4 anos).

Ainda durante a faculdade, participou de dois anos de Iniciação Científica, ou seja, um projeto de pesquisa acadêmica com alunos de graduação com pouca ou nenhuma experiência em pesquisa científica. 

Logo após a sua formação, já emendou um mestrado, que lhe proporcionou ir aos Estados Unidos apresentar o projeto em um congresso. Dessa experiência, veio uma oferta de estágio no país, que abriu seus olhos para a possibilidade de morar fora. Na época, com um filho de 7 anos e já mãe solo, os Estados Unidos não pareciam uma boa opção, mas começou a pesquisar sobre projetos e programas para vir à Europa.

Ao buscar vagas no exterior, imediatamente percebeu um maior número de vagas para pós-doutorado. Outra grande preocupação foi também o idioma, mas logo notou que, mesmo na Europa, havia uma enorme oferta de vagas em inglês.

Enfim, encontrou uma posição para doutorado e aplicou. Nesse caso, a candidatura aconteceu para um pesquisador e seu projeto, mas existem outras formas de se conseguir uma vaga: em projetos de pesquisa em empresas, institutos ou em projetos governamentais, por exemplo.

O projeto de pesquisa que a Luiza trabalha é esse aqui, se vocês quiserem dar uma espiada. Ele foi viabilizado através de uma subvenção do DFG, o Deutsche Forschungsgemeinschaft, ou Fundação Alemã de Pesquisa em português, um órgão que recebe dinheiro de impostos, tanto do governo federal quanto dos estaduais.

A Luiza ainda explicou que o DFG subsidia vários projetos de pesquisa para pesquisadores alemães iniciantes, como forma de incentivá-los a contribuir para a área de pesquisa na Alemanha e até, encorajá-los a voltar para o país, quando estão estudando ou trabalhando no exterior.

Algumas pessoas, inclusive, decidem procurar por vagas em projetos com pesquisadores que já admiram. Nesse caso, entram em contato direto com o cientista expressando seu apreço por essa linha de pesquisa e demonstrando o interesse em trabalhar com ele.

Passo a passo da Luiza para conseguir uma vaga de doutorado na Alemanha

  1. Montar o currículo acadêmico: resolvi primeiro contar a história da Luiza aí em cima, porque ela mostra como um currículo acadêmico não é construído de uma hora para outra. A Luiza já vinha participando de projetos desde a faculdade e isso foi, com certeza, uma vantagem para ela. 
    Participe, pesquise, escreva e destaque tudo isso no seu currículo acadêmico, assim como suas participações e apresentações em eventos, publicações, entre outros.
  1. Busca de vagas: aqui é importante ressaltar que, para que você faça um doutorado, é necessário já ser mestre, assim como para o pós-doutorado, é preciso já ser doutor. Veja o tipo de vaga que mais se encaixa no seu perfil e busque nos sites de vagas ou específicos para o mercado da sua área. Aqui estão algumas sugestões de sites:
  • Biostars – focado em vagas na área biológica
  • DAAD – bolsas de Master e doutorado na Alemanha
  • Euraxess – vagas em toda a Europa
  • TUM – vagas na Tecnical University of Munich
  • ResearchGate – rede social para pesquisadores
  • Romanistik – site para a área de linguística e literatura
  1. Carta de motivação: assim como o famoso Anschreiben, a carta de motivação para a candidatura de vagas em empresas no mercado de trabalho, a área acadêmica também necessita de uma carta para a etapa de seleção dos candidatos. Além de contar um pouco sobre as suas experiências e objetivos, ela deve conter o contato de duas pessoas que possam recomendar você. A Luiza recomenda o contato de dois orientadores de projetos antigos que você tenha participado.
  1. Entrevista por Skype: feita a seleção dos currículos e cartas, é chegada a hora das entrevistas. No Brasil, geralmente é realizada uma prova ou um estágio probatório para seleção dos bolsistas, mas aqui na Alemanha, fazer a entrevista é bem comum. 
    A Luiza precisou preparar uma apresentação rápida, de cerca de 5 minutos, sobre um projeto antigo do qual participou. Depois disso, o professor explicou mais sobre a vaga e o seu projeto e abriu para perguntas.
    É muito importante fazer perguntas (e isso vale para qualquer entrevista de emprego aqui, inclusive). A dica da Luiza é pesquisar o currículo do orientador do projeto ou instituição que está oferecendo a vaga. Dessa forma, a conversa flui de maneira agradável e proveitosa, além de você conseguir criar questionamentos interessantes para essa fase.
    A duração da entrevista varia, mas dura em torno de uma hora a uma hora e meia. Use esse tempo para discutir seus projetos, os do orientador, para falar sobre a linha de pesquisa e demonstre interesse!
  1. Cartas de recomendação: selecionados os melhores candidatos das entrevistas, o chefe de pesquisa envia uma solicitação de carta de recomendação aos contatos que você forneceu.

Depois disso, veio o “Sim” do orientador e começou-se um outro processo: o burocrático para o visto. A universidade base do projeto, conta um departamento que auxilia no processo de visto, fornecendo informações e sanando dúvidas, o que também pode ajudar bastante.

Algumas Universidades e Institutos também podem oferecer alguma ajuda de custo para a mudança, chamada de Relocation. Isso pode vir em forma de algum valor específico ou pagamento de algumas despesas, como a passagem de avião.

Não é um requisito para o visto comprovar nível de alemão ou certificado de inglês. Mas isso vai depender de vaga para vaga. No caso da Luiza, a entrevista em inglês foi suficiente para que o orientador percebesse seu domínio no idioma e ela não precisou apresentar nenhuma outra comprovação.

Outros documentos necessários foram os diplomas de graduação e mestrado, com reconhecimento de firma, tradução juramentada e apostilado; seguro saúde para o período de três meses; cópia do contrato de trabalho para o projeto, com vaga e salário descritos; além do formulário específico para o tipo de visto. 

Dependendo do tipo de visto necessário no seu caso, você pode ou não deixar para fazer seu visto diretamente na Alemanha. Por exemplo, se você precisar tirar um visto para Studium, não é permitido entrar no país como turista e alterar para esse visto, será necessário aplicá-lo ainda no Brasil.

De qualquer forma, eu recomendo dar início no seu processo no Brasil, assim o consulado já checa todos os seus documentos e você muda de país mais seguro e com o seu visto mais garantido. O visto fornecido no Consulado Alemão no Brasil tem a validade de três meses, ou seja, assim que você chega na Alemanha, precisa solicitar o visto definitivo.

Esse visto normalmente tem a duração até o fim do seu projeto, mas pode ser que você tenha ainda que renová-lo antes de concluir o seu trabalho por aqui. 

O processo de seleção para o projeto, no caso da Luiza, levou pouco menos de um mês. Depois da aprovação, foram quatro meses até o primeiro dia de trabalho, isso também porque ela precisou preparar os documentos para trazer o filho com ela.

Essa foi a experiência da Luiza sobre vir fazer um doutorado na Alemanha! Espero que as informações sejam úteis e ajudem você no seu processo também. Muito obrigada à Luiza por se dispor a compartilhar essas informações, além do pessoal lá do instagram, que me ajudou a trazer mais sites com vagas de mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Eu vou deixar aqui também algumas dicas de outros criadores de conteúdo que podem ajudar você a conseguir sua vaga em um programa de pós-gradução ou projetos de pesquisa aqui na Europa e Alemanha:

  • GermanyForYou – o instagram e blog da Lucé é cheio de informações e ela ainda oferece uma consultoria se você precisar de um serviço mais próximo e personalizado.
  • Maria Eduarda Krauss – o instagram dela tem muitas informações sobre mestrado, doc e pós-doc no exterior!

Contrate pelos links:
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2 Replies to “Doutorado na Alemanha – a experiência da Luiza”

  1. Muito legal seu post! Parabéns!

    1. Obrigada! ❤️

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